14/08/10

Sonho

O retrato é paradisíaco. O casal passeia num vale ladeado de pequenos montes, formando como que uma muralha de protecção. Ele com o braço esquerdo à volta do seu pescoço, ela com o braço direito enlaçando a cintura dele. À sua frente o pequeno rebento de oito anos pula ufano, arremessando pequenas pedras para a água de um pequeno riacho de águas límpidas que corre sereno mesmo ali ao lado, acompanhando os seus passos e abafando com o seu marulhar, o tom das suas vozes. Acima das suas cabeças, o céu forma uma abóbada completamente azul. Dir-se-ia que vivem um momento de extrema felicidade. Atrás deles, um homem dos seus quarenta e poucos anos observa-os, feliz, por ver tanta felicidade.

Aproveitando um momento em que o garoto se abaixa para apanhar algumas pedras, o desconhecido aproxima-se e, abrindo as pernas, salta por cima dele. O miúdo, que não gosta da brincadeira, olha espantado para o intrometido e dirige um ar interrogador para os pais. Estes apartam-se num segundo e, no segundo a seguir, já o pai profere estas palavras: “Seu estúpido…” O estranho, nem sabe como reagir. Experimenta passar a mão na cabeça do pequeno para lhe pedir desculpa, mas ele esquiva-se e corre a chorar em direcção aos pais e, quando a família, já toda abraçada, se encontra a uma distância de cerca de dois metros do causador do fim de tão fugaz momento de felicidade, este desculpa-se da seguinte forma: “Peço desculpa, é que por momentos, vi no vosso filho uma das minhas filhas quando eram mais pequenas e não resisti à tentação de brincar com ele, como sempre fiz com elas. Não quis de forma alguma expô-lo ao ridículo.” Perante estas palavras, os pais entreolham-se, fazem mea culpa e dizem que compreenderam mal o gesto, ao mesmo tempo que pedem ao filho para dar um beijo ao senhor. Para deleite do estranho, o garoto assim faz.

E o céu continua azul e o rio ali está, acompanhando os seus passos e os montes continuam a servir-lhes de muralha de protecção.

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