Quando o sol acorda e se levanta ao cimo da povoação, faz embater os seus raios naquela tília de cinco grossos caules e de copas muito altas, provocando uma s
ombra que atravessa a estrada e palmilha uns bons passos no terreno do tio Manuel, sombra essa que vai ganhando novas formas, consoante a hora do dia e a consequente mudança de direcção. Por volta das duas ou três horas da tarde, os agraciados com essa magnífica sombra são os moradores de uma casa que fica ali a escassos metros, o senhor Amaro, que é agente da guarda nacional republicana, a senhora Laura, que é costureira, e os filhos José e Zita que têm oito e seis anos respectivamente.Joel é um miúdo de sete anos e é vizinho desta família. Como o José e a Zita são praticamente da sua idade, é com eles que costuma brincar a maior parte das vezes. Diz-se apaixonado pela Zita e marca sucessivos encontros com ela para namorarem. Têm até um esconderijo secreto numa vala contígua a uma garagem ali próxima, debaixo de uns ramos de pinheiro. Por vezes, ali estão eles dando beijinhos, fazendo de conta que não ouvem, se alguém chama por eles.
Estamos num dia de verão, são quase quatro horas da tarde e Joel encaminha-se, descalço e em tronco nu, com o seu jeito desengonçado, para mais um encontro com Zita, que o espera debaixo da tília. Pelo caminho cruza-se com a senhora Márcia. “Olá, Joel, não serias capaz de trepar àquela tília e apanhar-me umas folhas de chá?” Disse ela ao gaiato, estendendo-lhe um saco de plástico. O garoto, ao ver ali uma excelente oportunidade para demonstrar os seus dotes de trepador perante a sua amada, nem pensa duas vezes. “É p’ra já!” diz ele contente. Chegado à tília, lança um sorriso à namorada, agarra-se a um dos troncos e, com a destreza de um gato, em poucos minutos, já está num dos pontos mais altos da majestosa árvore. Volvidos alguns instantes e já com o saco cheio, desce com a mesma velocidade com que subiu. Vem, talvez, a meio do percurso e, oh desgraça… o que é que aconteceu? Foi o saco que ficou preso em algum lado, ou foi ele que colocou mal um dos pés e escorregou? Vejo-o saltar de ramo em ramo, completamente desamparado. Oh deus, o saco acaba de cair no chão e, não tarda, cai ele também. Olho para cima e vejo-o pendurado, dobrado de barriga para baixo, num dos ramos do fundo. A senhora Márcia já chora e lamenta-se de ter tido tão infeliz ideia Felizmente, não sofreu mais do que uns simples arranhões. Zita, no entanto, acaba de chamar a mãe para o que der e vier.
Mas eis que Joel acaba de descer, sem ajuda de ninguém e até parece que nada aconteceu.
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