A mãe dele não cabia em si de contente. Estava quase a completar as luas necessárias à sua gestação e ela, sempre convencida de que iria dar à luz uma menina, distribuía sorrisos e mostrava-se amável com toda a gente. Como já tinha três filhos, acreditava que Deus não lhe iria fazer a desfeita de lhe dar outro rapaz. Por isso a desilusão foi enorme, quando naquela noite de Fevereiro, entre choros, gemidos e de muita confusão, ela viu que afinal Deus não era seu amigo. O esmero e a dedicação que teve a fazer antecipadamente as saiitas e os vestiditos, acabaram por tornar-se gestos de fraca premonição. Ficou de tal forma zangada com Deus que nos primeiros dois ou três anos de vida, o miúdo não vestiu outra roupa que não fosse de menina.
É claro que as crianças são imunes às convenções dos homens e para Amândio, assim se chama o miúdo desta história, tanto fazia vestir uma saia ou umas calças; nunca se sentiu ridicularizado nem ferido na sua auto-estima, por isso brincava, indiferente às críticas e aos olhares zombeteiros das pessoas do povo. Vejo-o sentado ao cimo do quintal, de pernitas ao léu, desenhando na terra um quarto de círculo com a mãozita rechonchuda.
Um dos irmãos vigia-o enquanto faz os trabalhos da escola. Por certo, estarão também todos os elementos do universo de olho nele.
O fundo do quintal confronta com o caminho público com um muro que tem mais ou menos dois metros de altura. Do lugar onde Amândio se encontra até lá, não são mais de trinta metros, distância que ele, a gatinhar, demora um ou dois minutos.
Não sei como é que o irmão se descuidou, o que é facto é que a criança, qual serpente rastejante, já está à beira do muro, ao fundo do quintal, prestes a mergulhar para o caminho, como se de uma piscina se tratasse e, se não fossem os ditos elementos, a esta hora, não estaria nos braços da D. Marceana que, providencialmente, por ali está a passar e acaba de o apanhar da calçada ileso; não se vislumbra nem um pequeno arranhão. Felizmente que o irmão, com pouco mais de dez anos, nem sequer teve a noção da sua irresponsabilidade e, Amândio, daqui a pouco, vai continuar a brincar na terra, com o cão e com os gatos.
Não sei se ria ou se chore! Eis que, espontaneamente, faço as duas coisas, cabalmente emocionado.
ResponderEliminarPermite-me, para começar, uma homenagem à Dona Marceana, com um poema que em tempos escrevi, não exclusivamente para ela, mas, muito dele, com ela, escorreita, no pensamento:
A Viúva
Desceu do autocarro uma velhinha linda
com olhos sedutores de quem namora ainda
Vem das compras da cidade
Dir-se-ia que respira vaidade
Bem trajada a senhora direita de cinta fina
deixa os que ficaram para tios aos ais
Veste uma saia com pregas orientais
da mais pura popelina
Inunda o ar o perfume que exala
do bom do melhor do françês
com passo irrequieto de gata maltês
irrompe com estilo gesticula fala
Traz um saco numa mão
com quatro barras de sabão
caramujos para as vizinhas
e biscoitos para as galinhas
Na outra alberga uma dúzia de rosas
dum vermelho do Abril das horas ruidosas
para assear a campa do marido
morto na guerra por um preto bandido
Adiante!
Do Amândio, não sei se por instinto ou premonição, conheço a vidinha até que bonde! O labrego, soube-o uns anos mais tarde pela mãe que os pariu, ter-se-á aproximado do muro para ir às videiras no fundo do quintal colher dos bagos Tinta Pinheiro que então aí frutificavam. Valeu-lhes acorrerem, quase que por magia, a Dona Marceana e o Senhor Benardino, a sardinheira e o rezineiro, para abonar em favor da história.
O título do flash, "O Vigilante", não diz, por modéstia, quem era (e é!) o irmão do Amândio. Porque era muito mais! Além do tanto que é ser-se IRMÃO, era PAI, EXEMPLO, HERÓI...
Termino perguntando assim, Poderia Deus não aceder às preces de uma tal mãe? E respondo, Existindo, não podia!