18/06/10

Saramago

Assistia eu ao Jornal da Tarde na RTP1 quando apareceu como notícia de última hora a morte de José Saramago. Momentaneamente, senti um calafrio percorrer-me o corpo, sem que eu saiba explicar porquê, foi como se me tivessem dado a notícia de que tinha morrido um familiar muito próximo. E, curioso, foi o facto de o meu mano ter tido a mesma reacção quando o informei por telefone.


Fizeram-se ouvir de imediato dezenas de reacções, das quais retive duas, uma de um dos mais promissores senhores das letras em Portugal, Gonçalo Tavares, e que dizia: “Hoje é um dia trágico, é um dia triste”. E outra do nosso presidente da República, mais ou menos com o seguinte conteúdo: “José Saramago é um escritor de projecção mundial e será sempre uma figura de referência da cultura nacional. Em nome dos Portugueses e em meu nome pessoal, presto homenagem à memória de José Saramago, cuja vasta obra literária deve ser lida e conhecida pelas gerações futuras.” Considero estas duas declarações verdadeiramente antagónicas. A primeira é sentida e emocionada, a segunda, hipócrita. É esta a grande diferença entre um político (especialmente este) e um homem das artes. A declaração de Cavaco Silva fez-me recuar um pouco no tempo e levou-me até ao ano de 1993, altura em que um qualquer seu sub-secretário de estado, dito da cultura, riscou o nome de José Saramago da candidatura a um prémio literário europeu, a pretexto da não representatividade num país predominantemente católico, sob a sua supervisão e consentimento como chefe do governo. Isto por causa de uma obra intitulada “O evangelho segundo Jesus Cristo”, que o escritor tinha editado em 1991. Estamos, portanto, perante a mesma pessoa mas com duas caras. O porquê talvez só o próprio o possa explicar.

Como disse Gonçalo Tavares, até certo ponto é um dia trágico e triste, mas não esqueçamos do legado que Saramago nos deixa que, ao imergirmos nele, rapidamente nos esquecemos da sua morte. Aliás não há ninguém como ele para nos ajudar a compreender que a morte está permanentemente ao nosso lado, mas que só nos mata se nós quisermos. Acredito que a ele, tal como aconteceu a um certo violoncelista, nunca matará.

Sou um admirador entusiástico dos seus livros, dos quais já li a maior parte. Para além de gostar da forma como escreve, em que cada livro é uma enorme metáfora, partilho de grande parte das suas ideias. Gostei de todos os livros que li, mas destacaria três: “O memorial do convento”, pela história toda, mas especialmente, pela dupla de personagens Baltasar e Blimunda, e dos “Ensaios sobre a cegueira e lucidez”, reveladores da verdadeira crise social em que vivemos e da forma como dela nos alheamos.

Sei que pediste para não colocarem lápides e muito menos inscrições no lugar onde te depositarem, mas apetece-me dizer-te: “Obrigado por existires.”

1 comentário:

  1. J. Mantino19/06/10, 12:47

    É com profunda emoção que leio as tuas palavras. Assino por baixo em tudo o que dizes. Incluive no agradecimento à sua existência (ciente que estou de que SARAMAGO jamais morrerá).

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