Àquela distância, de mais ou menos trinta metros, pareceu-lhe que ela não tinha mais do que vinte anos. Ele viu que ela gesticulava e, pelos seus gestos, parecia-lhe que ela queria saber as horas, pois apontava com o indicador direito para o pulso esquerdo, mas instantes depois, quando ele já se encontrava mais próximo dela, reparou que o mover dos seus lábios não correspondia à pergunta: “Que horas são?”, porque o tempo que ela demorava a falar era mais curto do que o necessário para a dita pergunta. Ao cruzar-se com ela, reparou que ela tinha um cabelo castanho claro empastado, de boneca mal estimada, em cima de uma cara macerada de rugas, que aparentava pertencer a uma mulher de sessenta anos, pendurada num corpo a que ele não dava mais de vinte. Numa das mãos, tinha um bloco de notas sujo e um cigarro, na outra, uma garrafa de um líquido qualquer. E dizia ela quase em desespero: “Relógio, relógio.” “O quê?” Perguntou ele. “Que horas são? Foda-se…” Insistiu ela, zangada. “São horas de comprares um relógio, minha, foda-se…” Respondeu ele em tom irónico, ao mesmo tempo que lhe mostrava o seu. “Desculpe, que horas são, por favor?” Retorquiu ela, arrependida. “São dez horas.” Volveu ele, amavelmente. “Muito obrigada.” Arrematou ela, ficando a olhá-lo nas costas, enquanto ele seguia o seu caminho
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