O tio João tem oitenta e sete anos. Aos vinte assentou praça
na Marinha para dar o seu contributo na defesa da liberdade e independência da
sua Pátria. Estávamos em 1945 e os senhores da guerra decidiram dar tréguas às
armas que vomitavam balas havia uns anos, deixando para trás um rasto de
destruição e miséria. Acabava de fazer um ano que o tio João tinha casado e
estava a caminho o Pedro, filho mais velho de dois casais que a esposa lhe
viria a dar. Ainda que quisesse, não podia dizer que não e, fazendo bem as
contas, como iria sustentar a família? “Há males que vêm por bem” pensou. Tinha
amigos a cumprir o serviço militar que lhe diziam: “Ó João, vê as coisas pelo
lado positivo, a guerra já acabou e, da tropa, ainda podes trazer um pão com um
pedaço de carne e uma peça de fruta que sempre dá para alimentares a tua
mulher” o que o fez sentir-se mais animado. Volvidos alguns meses, ali estava
ele, em plena parada, junto de umas largas centenas de outros como ele,
perfilado, a olhar em frente, com o braço direito , à altura do ombro,
estendido para a frente, a mão aberta,
voltada para baixo, e com a mão esquerda empunhando uma arma, gritando a plenos
pulmões: “Juro, como português e como militar, guardar e fazer guardar a
Constituição e as leis da República…” sem disso saber o significado. Findos os
quatro anos de serviço militar obrigatório, e como as condições de vida se
vinham degradando cada vez mais, acabou por “meter o chico” (expressão utilizada
quando um militar se propunha entrar nos quadros permanentes das forças armadas).
É claro que ele não imaginava que outra
guerra ainda estava para vir e que, a essa, não podia fugir, a Guerra Colonial.
Já os quatro filhos eram nascidos quando foi destacado para
um Centro de Comunicações no Lago do Niassa em Moçambique por um período de 3
anos. O Pedro, com 17 anos, já era um homenzinho e os outros também já eram
crescidotes, a Joana tinha 15, o Carlos 12 e a Carolina 8. Decorria o ano de
1963 e a guerra começaria um ano depois.
Do ultramar pouco me conta. Quando o interpelei sobre isso,
fixou os olhos num ponto qualquer do teto, como se ali estivesse a resposta e
da sua boca apenas saíram pequenas frases e algumas incompletas: “Tive sorte…
alguns ficaram lá…” “Ainda bem que lá fui, se não como iria alimentar as cinco
bocas lá em casa?” Afinal, embora não fosse muito, sempre caía algum dinheirito
extra. De regresso a casa, ficaria sempre a padecer da perna direita por causa
de um tiro perdido.
Saiu da Marinha em 1979 com o posto de Sargento Ajudante com
um misto de satisfação e um pouco de desilusão. Confessou-me: “Fui sempre o
primeiro nos cursos que frequentei e, no fim, outros mais novos acabaram por
ser promovidos antes de mim.” E continuou: “Sabe quando é que a Marinha deixou
de ser o que era? Quando vieram os Draga-Minas.” “Como assim?” Perguntei bisbilhoteiro.
“Foi nessa altura que aspirantezecos com os ‘cueiros atrás da porta’ começaram
a tratar cabos de trinta e quarenta anos por tu, a partir daí…” Eis um pormenor
deveras curioso.
Antes de para aqui vir estava num lar de idosos. Os filhos
tinham as suas vidas e a esposa falecera havia uns anos. Apesar de algo
monótona, a vida no lar proporcionava-lhe alguns momentos de convívio com
outras pessoas como ele, e depois, esporadicamente, lá ia recebendo uma visita fugaz dos filhos.
Um dia destes, quando se dirigia para um banquito, apoiado
na sua bengala, para aproveitar uma réstia de sol, tropeçou, caiu desamparado e
já não conseguiu levantar-se sozinho. Chamaram uma ambulância e levaram-no às
urgências de um hospital público. Ao cabo de algumas horas regressou sem que
lhe fosse diagnosticada qualquer fratura. Mas todos os dias ele se queixava de
dores insuportáveis. Os responsáveis do lar diziam que as dores eram resultado
da queda e que, não tendo nada partido, com o tempo iriam passar. Uma semana
depois, um dos filhos achou estranho o pai continuar a queixar-se tanto e levou-o
ao Hospital X. Exame para aqui, exame para acolá e veio o diagnóstico:
fratura do úmero do braço direito e fratura do colo do fémur da perna esquerda.
Foi transferido ontem para o departamento de cirurgia, para
ser operado daqui a três dias. Até lá, vai ficar aqui a meu lado nesta posição
incómoda, deitado de costas, com os olhos presos no teto e a poder mexer apenas
o braço esquerdo, pedindo ajuda a toda a hora para as necessidades mais básicas
(Sinto incómodo na perna direita. Dê-me um copo de água. Fiz cócó.) Ontem foi
precisamente quando eu fui operado ao joelho esquerdo e quando regressei do
recobro já ele era meu camarada de caserna. Apercebo-me que ele se esforça ao
máximo por não incomodar seja quem for. Tem uma respiração ofegante, o rosto um
pouco pálido, sofre de diabetes, tem uma tensão arterial muito baixa (9/4) e um
pulso muito alto (112). Fala baixo e com bastante dificuldade. Diz obrigado a
tudo e pede desculpa por algum inconveniente.
Esta manhã acordei com a auxiliar a dizer, num tom de enfado
e aborrecimento: “Chi, eu nem quero acreditar, o que é que aconteceu aqui?
Arrancou-me o acesso… está todo empapado em sangue.” Enquanto isto dizia ia
virando costas para chamar a enfermeira. O tio João, numa voz quase inaudível, e
sempre naquela posição incómoda lá ia dizendo: “Desculpem, eu estava a sonhar…”
regressa a auxiliar com a enfermeira e ora uma ora outra vão perguntando:
“Então o senhor não sentia mal estar? Não sabia chamar?” e ele repetia: “Desculpem,
eu estava a sonhar…” e foi neste ‘ram ram’ que lhe mudaram a roupa da cama e do
corpo verdadeiramente ensopada em sangue.
Algum tempo depois
atendeu uma chamada no telemóvel de uma das filhas. Perguntava a filha:
“Então pai, está tudo bem?” e ele, numa voz fraca respondeu: “Não, olha…” e a
filha interrompeu: “E já tomaste o pequeno almoço?” e ele continuou: “Eu hoje
destrui… “ e a filha interrompeu de novo: “Pronto, eu amanhã passo por aí para
te fazer uma visita, até amanhã.” E ele respondeu: “Até amanhã, filha.”
Apraz-me citar o meu escritor favorito: “O egoísmo pessoal, o comodismo, a falta de generosidade, as pequenas cobardias do quotidiano, tudo isto contribui para essa perniciosa forma de cegueira mental que consiste em estar no mundo e não ver o mundo, ou só ver dele o que, em cada momento, for susceptível de servir os nossos interesses.” José Saramago
Amanhã, quando a filha vier visitar o pai, já eu estarei em
casa a convalescer da minha operação ao joelho. Desejo a maior sorte do mundo
ao SENHOR JOÃO.
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