10/10/14

Valeu a pena? Tudo vale a pena, se a alma não é pequena.




Costuma dizer-se: “Dos fracos não reza a história.” Mas também se diz: “Mais vale um cobarde vivo do que um herói morto.” Ouvimos ainda dizer: “Só se vive uma vez.” Prefiro, apesar de tudo a frase: “Devemos agir segundo o que a consciência nos diz.”


Estou na marinha há 32 anos e, um dia destes, enquanto lia a ordem de serviço de pessoal, senti-me verdadeiramente triste. Foi uma daquelas tristezas que nos causam arrepios na coluna vertebral e que nos transportam para outro estádio do nosso ser e nos fazem compreender melhor a hipocrisia da besta humana.

Foram promovidos, por escolha, ao posto imediato, dois camaradas. Estes dois camaradas ultrapassaram um outro mais antigo do que eles. É evidente que os dois promovidos teriam melhores avaliações do que o preterido, mas seriam eles melhores do que ele? Os camaradas em causa, têm de Marinha, mais ano menos ano, o mesmo tempo que eu, e conheço-os muito bem, como pessoas, como profissionais e como militares, e considero ter sido cometida uma grande injustiça. Falo fundamentalmente de questões profissionais. Falo de comparação de saberes. Falo de saber ou não saber. Falo de que o que sabe fica e o que não sabe avança. Conheço-os há muitos anos e sei que é mesmo assim. E como isto dói… mas quem se importa com isso? No fundo, os que foram promovidos, o que é que lucram? Ganham mais uns trocos, são vistos pelos outros como mais capazes, porque passam a ostentar mais uma risca nas passadeiras. E o que não foi promovido, o que é que perde? Não, não são uns trocos, nem a risca da passadeira, perde um pouco de si, perde a sua dignidade, perde a sua identidade, porque passou grande parte da sua vida a dignificar a Marinha e a classe que representa, tendo sido, diga-se de verdade, um dos melhores, e o que é que recebeu como prémio? Ser preterido por camaradas, quiçá, com metade do seu saber.


Mas volto à questão inicial, o que nos diz a nossa consciência? Em um caso diz: consegui os meus objetivos, apesar de ser limitado, alcancei um estatuto digno de registo, onde outros, sendo melhores do que eu, não conseguiram chegar; em outro caso diz: de nada serve ser melhor do que os outros se não tivermos em conta outros fatores, só ao alcance dos mais limitados, mas mais habilidosos.


Outra pergunta a colocar é: E daqui para diante, vale a pena continuar? No primeiro caso, a resposta é, obviamente, sim. No segundo caso, a resposta é, obviamente, não.


No final, com ou sem saber, esta pequena roda, pendurada no cosmos, continua a girar de forma harmoniosa, alheada da singularidade destes pequenos nadas a que insistimos querer dar tanta importância. Esqueçamos os heróis, os cobardes, os vivos, os mortos, os fracos, a história e a consciência. Façamos por ser felizes.

1 comentário:

  1. Quando os critérios de avaliação do progresso, individual ou social, deixam de ser a dedicação e a vontade de fazer bem, e, graças ao "Engraxanço" e ao "Culambismo" (ver Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'), quais jogos contorcionistas, outros de valor e interesse duvidosos prevalecem. Todos sabemos do que é capaz a humanidade, julgando-se mais forte e mais apta... Assim foram outrora os dinossauros, e deles não restou um só! O melhor é viver cada dia, concordando contigo, seguindo a nossa consciência. Abraço. J. Mantino.

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