Costuma dizer-se: “Dos fracos não reza a história.” Mas também
se diz: “Mais vale um cobarde vivo do que um herói morto.” Ouvimos ainda dizer:
“Só se vive uma vez.” Prefiro, apesar de tudo a frase: “Devemos agir segundo o
que a consciência nos diz.”
Estou na marinha há 32 anos e, um dia destes, enquanto lia a
ordem de serviço de pessoal, senti-me verdadeiramente triste. Foi uma daquelas tristezas
que nos causam arrepios na coluna vertebral e que nos transportam para outro
estádio do nosso ser e nos fazem compreender melhor a hipocrisia da besta
humana.
Foram promovidos, por escolha, ao posto imediato, dois
camaradas. Estes dois camaradas ultrapassaram um outro mais antigo do
que eles. É evidente que os dois promovidos teriam melhores
avaliações do que o preterido, mas seriam eles melhores do que ele? Os
camaradas em causa, têm de Marinha, mais ano menos ano, o mesmo tempo que eu, e
conheço-os muito bem, como pessoas, como profissionais e como militares, e
considero ter sido cometida uma grande injustiça. Falo fundamentalmente de
questões profissionais. Falo de comparação de saberes. Falo de saber ou não saber.
Falo de que o que sabe fica e o que não sabe avança. Conheço-os há muitos anos
e sei que é mesmo assim. E como isto dói… mas quem se importa com isso? No fundo,
os que foram promovidos, o que é que lucram? Ganham mais uns trocos, são vistos
pelos outros como mais capazes, porque passam a ostentar mais uma risca nas
passadeiras. E o que não foi promovido, o que é que perde? Não, não são uns
trocos, nem a risca da passadeira, perde um pouco de si, perde a sua dignidade,
perde a sua identidade, porque passou grande parte da sua vida a dignificar a
Marinha e a classe que representa, tendo sido, diga-se de verdade, um dos
melhores, e o que é que recebeu como prémio? Ser preterido por camaradas, quiçá,
com metade do seu saber.
Mas volto à questão inicial, o que nos diz a nossa consciência?
Em um caso diz: consegui os meus objetivos, apesar de ser limitado, alcancei um
estatuto digno de registo, onde outros, sendo melhores do que eu, não conseguiram
chegar; em outro caso diz: de nada serve ser melhor do que os outros se não tivermos
em conta outros fatores, só ao alcance dos mais limitados, mas mais habilidosos.
Outra pergunta a colocar é: E daqui para diante, vale a pena
continuar? No primeiro caso, a resposta é, obviamente, sim. No segundo caso, a
resposta é, obviamente, não.
No final, com ou sem saber, esta pequena roda, pendurada no
cosmos, continua a girar de forma harmoniosa, alheada da singularidade destes pequenos
nadas a que insistimos querer dar tanta importância. Esqueçamos os heróis, os
cobardes, os vivos, os mortos, os fracos, a história e a consciência. Façamos por
ser felizes.
Quando os critérios de avaliação do progresso, individual ou social, deixam de ser a dedicação e a vontade de fazer bem, e, graças ao "Engraxanço" e ao "Culambismo" (ver Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'), quais jogos contorcionistas, outros de valor e interesse duvidosos prevalecem. Todos sabemos do que é capaz a humanidade, julgando-se mais forte e mais apta... Assim foram outrora os dinossauros, e deles não restou um só! O melhor é viver cada dia, concordando contigo, seguindo a nossa consciência. Abraço. J. Mantino.
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