Era de raça preta o jovem que entrou para o autocarro numa
das paragens entre a Cova da Piedade e o Laranjeiro. Equipado com um fato de
treino do Sporting, calçado com uns ténis de marca, e de saco com o emblema do Sporting
a tiracolo, parecia que vinha ele de um treino deste clube. O condutor do
autocarro era também de raça preta, mas de um preto ainda mais carregado do que
o jovem. Ao subir para o autocarro, o jovem sentiu o olhar do condutor cravado
em si, mas não se descompôs; seguiu o seu caminho com a maior descontração do
mundo e foi sentar-se numa das cadeiras por detrás da cabine do condutor. Este deixou
passar alguns segundos e, olhando pelo retrovisor, perguntou: “Então, jovem?” O jovem que estava de
costas, virou-se ligeiramente de lado e retrucou com o ar mais inocente alguma
vez visto “Então o quê?” “Não há passe, não há bilhete, como é?" Indagou o
condutor. Com toda a calma, o jovem levantou-se do seu lugar e aproximou-se do
condutor e disse (…) “Então, porque não disseste logo?” Continuou o condutor. E
o jovem desculpou-se (…) “Rua.” Ordenou o condutor. (…) Pediu o jovem. “Rua, já
disse.” Insistiu o condutor “Porra para esta merda…” grunhiu o jovem escarrando
para o chão da calçada enquanto descia do autocarro.
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