De regresso a casa
Estive a trabalhar durante a noite. Foram 12 horas (das 21
às 09) sem pregar olho. Ainda zonzo e cambaleante, saí à pressa e nem me
lembrei que iria ser difícil aguentar, sem urinar, as cerca de 2 horas que em
geral levo a chegar a casa, porque, muito embora não seja grande a distância, o
trajeto é labiríntico: começo por apanhar boleia do meu local de trabalho até
ao autocarro que me vai levar ao barco a Cacilhas. Aí apanho o cacilheiro para
atravessar o rio. Uma vez no Cais do Sodré, se tiver tempo suficiente, palmilho
a pé os aproximados 2 km que distam a Sta. Apolónia, se não, apanho o metro. De
Sta. Apolónia a Alverca o comboio demora 15 a 20 minutos, depois é só andar
mais 7 minutinhos a pé, e voilá, estou em casa.
Ora, estava eu a chegar a Cacilhas
quando a minha bexiga me informou que precisava de ser despejada. Ao entrar no
barco “O Lisbonense”, como é um barco de
construção recente e de maiores dimensões que os anteriores, em vez de estar a perder tempo, dirigi-me a um dos tripulantes e perguntei: “Desculpe,
pode informar-me onde são as casas de banho?” ”São no piso superior na parte mais
a ré do barco.” Respondeu-me. Subi. Lá estavam. Só que estavam fechadas. Na porta,
podia ler-se numa pequena placa metálica, a seguinte inscrição: “Durante a
viagem, solicite a chave ao marinheiro de serviço.” Ainda experimentei a que se
destinava aos deficientes, mas também essa estava fechada. “Estarão fechadas
porquê?” Interroguei-me. Desci as escadas e, ao ver-me, o funcionário que me
tinha dado a informação, abeirou-se de mim. Sabia que eu não tinha tido tempo
para fazer necessidades. “Então?” Sibilou. “Está fechada.” Retorqui. “Mas a das
senhoras está aberta!...” Observou ele num tom de uma frase inacabada e a pedir
um LOL. Entusiasmado com a lição,
segui-o escada acima. “Afinal a das senhoras também está fechada, se não, podia
servir-se dela, uma vez que dá para trancar por dentro, mas uma vez que estou
aqui, abro-lhe a dos homens.” Considerou. “Muito obrigado.” Respondi. Quando entrei
fiquei desconsolado. Tinha imaginado uma casa de banho limpa e que, pelo menos,
tivesse um rolo de papel higiénico, e talvez isso justificasse, um pouco, o
porquê de estar fechada, mas nem uma coisa nem outra.
Como um azar nunca vem só, depois de mijar, surgiu-me
a vontade de cagar. ”E agora?” Perguntei-me. Apalpei os bolsos e só encontrei
um lenço de assoar o nariz. Em esforço e de cócoras, evitando o contacto com as
bordas conspurcadas da sanita, lá fiz sair o cagalhão causador do meu reboliço
intestinal. Com o guardanapo, limpei o rabo o melhor que pude. Carreguei no botão
do autoclismo que, supostamente, deveria fazer jorrar um jato de água para
arrastar consigo os detritos depositados e, em vez disso, ouvi um estalido seco
parecido com o de uma pressão de ar
acabada de desferir um chumbo. Abri a torneira que estava num dos cantos da
casa de banho, passei as mãos num pequeno fio de água que, casualmente,
escorria e saí secando-as nas calças.
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