Sob o título "Furto", o artigo 203º do código penal português, no seu ponto 1, diz o seguinte: "Quem, com ilegítima intenção de apropriação para si ou para outra pessoa, subtrair coisa móvel alheia, é punido com pena de prisão até 3 anos ou com pena de multa.". Qualquer pessoa, à primeira vista, não teria dúvida nenhuma na interpretação deste artigo, mas se analisarmos bem, está ali uma palavrinha que pode fazer com que as coisas não sejam bem assim, que é a palavra ilegítima. Ilegítimo significa: que vai contra a lei, que não está conforme o direito, que vai contra as regras. Sendo assim, poderemos questionar-nos: mas então será legítimo uma pessoa roubar uma maçã para comer se estiver a morrer de fome, e não tiver outra forma de a conseguir? A resposta é, obviamente, não, porque na lei não existe nada escrito sobre esta questão. Mas existe sobre outras questões, como por exemplo: bilhetes dos transportes públicos, taxa de rádio e televisão na factura da EDP, despesas de manutenção cobradas pelos bancos, etc., etc.. Isto é, existe o roubo legal e o roubo ilegal. Quando uma empresa de transportes nos cobra 50 cêntimos por um pedaço de cartão que tem a validade de um ano, e que finda essa validade, ainda que o cartão esteja em condições, teremos que desembolsar mais 50 cêntimos para adquirir um novo cartão, estamos perante um roubo legal. Quando uma empresa como a EDP, que tem milhões de lucro por ano, nos cobra uma taxa de rádio e de televisão mensal, ainda que seja de uma casa onde só temos um motor de rega, estamos a falar de um desvio legal. Quando um banco, que todos os anos vê aumentada a sua percentagem de lucros, nos cobra uma taxa de despesas de manutenção, porque a miséria que ganhamos não cumpre o saldo médio que eles pretendem - se todos ganhassem tanto como eles, o problema não se punha - estamos visivelmente numa situação de subtracção legal de coisa móvel alheia. Mas quando um desgraçado assalta um supermercado para tirar meia dúzia de maçãs porque a fome é negra, toda a gente vê que isto é ilegal, ilegítimo e outras coisas começadas por "i".
Estamos em crise, é verdade, mas a verdadeira crise está na apatia com que assistimos todos, displicentemente, ao assalto aos nossos bolsos por parte de oportunistas sem escrúpulos protegidos por um estado, ainda menos escrupuloso.
Estamos em crise, é verdade, mas a verdadeira crise está na apatia com que assistimos todos, displicentemente, ao assalto aos nossos bolsos por parte de oportunistas sem escrúpulos protegidos por um estado, ainda menos escrupuloso.
Foi por furtar um "miserável" pão que um tal Jean Valjean foi condenado às galés muitos e intermináveis anos. Para a Sra. Justiça foi determinante o facto de o Padeiro, em vez dos n pães cozidos no forno de lenha, ter vendido n-1.
ResponderEliminarPergunto assim, Alguém se preocupou com a realidade do pobre? E também, Quem é que furta um pão sabendo que é crime punível com as galés? As respostas parecem lógicas: à primeira, Ninguém quis saber peva do homem!; à segunda, Qualquer de nós que seja masoquista, cleptomaníaco ou tenha FOME!
Hoje, como ontem, não faltam por aí Jean Valjeans, nem Padeiros, nem (iluminados)representantes da Sra. Justiça e/ou fazedores de Leis.
A Sra. Justiça entende que as Leis devem ser iguais para todos. Parece-me, no entanto, ridículo (a título de exemplo) que uma Lei proíba, da mesma forma, um Sem-abrigo e um Deputado de dormir debaixo da ponte.
Abraço!!
A tal "Sra. Justiça" ainda não percebeu que se anda a juntar com más companhias! A política não joga bem com qualquer outra área plenamente sã e muito menos se dá com senhoras de olhos vendados.
ResponderEliminarCumprimentos com Comprimento