20/03/10

O Inverno

Flash 6

É, sem dúvida, a pior estação do ano. Os dias são curtos e cinzentos, as noites são longas e frias e as casas tornam-se verdadeiros frigoríficos. Durante o Verão e o Outono, as pessoas, com a fábula de La Fontaine em mente, precavêem-se o mais possível para evitar males maiores. Para o gado, secam-se e arrumam-se canas, corutos e erva, e para fazer face ao frio, os putos, especialmente, desdobram-se em esforços para conseguir uma boa quantidade de lenha. Consigo vê-los como se agora estivesse a acontecer. Vão a caminho da Sta. Eufêmea, os três em cima da carroça conduzida por uma burra, o Manuel, dono do animal, e dois irmãos, o Fernando e o Daniel. Este é mais novo dois anos do que os outros dois que têm 14 anos. Levam consigo vários sacos que, no regresso, virão cheios de pinhas. São miúdos dotados de uma audácia e de uma destreza física fantásticas. Trepam aos pinheiros com a agilidade de um macaco e, já lá em cima, servindo-se da navalha que levam no bolso, cortam um pequeno ramo, do qual se servem para fazerem soltar as pinhas. Em pouco tempo têm o corpo um pouco esfarrapado, mas também têm uma quantidade de pinhas, suficientes para encherem dois ou três sacos. Não levam mais que três horas a encherem os 14 sacos a que se propunham. Cumprida a tarefa, vem o momento mais esperado: prende-se a burra a um pinheiro, arranjam-se algumas ervas para a entreter e ala dar um mergulho na “fonte da malguinha”, uma poça de água tépida escondida nos rochedos a escassos metros dali, onde já outros miúdos se banham numa alegria indescritível. Acabado o banho, secam os corpos numa breve exposição ao sol e regressam a casa verdadeiramente contentes.

Os irmãos Fernando e Daniel, não têm matas onde possam ir buscar a lenha de que precisam para o Inverno e então servem-se das matas dos outros. Felizmente que ninguém se opõe que apanhem as pinhas nem que se esgalhem os ramos fundeiros dos pinheiros. Mas como é que eles vão conseguir esgalhar esses pinheiros? Pregam duas varas com cerca de 3 metros cada uma, formando uma só vara com 6 metros aproximadamente e, na ponta, colocam uma roçadoura. A principal dificuldade está em pôr a vara na vertical, pois, devido ao seu comprimento, muitas vezes parte, antes que isso aconteça; mas uma vez o consigam, basta fazerem um pequeno corte com a roçadoura na parte do ramo mais próxima do tronco e deslocar depois a vara para a extremidade, puxando-o com um pequeno esticão. Ouve-se um pequeno estrondo, resultante do partir do ramo que, um segundo depois, cai a seus pés como por milagre. Repetem o gesto vezes sem conta, até conseguirem encher a carroça que a burra do Manuel irá buscar lá para o fim do dia.

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