Venha ela! E que seja fulminante e arrasadora, e que arraste
consigo toda uma nação decrépita para que renasça das cinzas, livre deste cancro
que a tem vindo a consumir. Que leve velhos e novos, pobres e ricos, doentes e
sãos. Uns porque acorrentados à sua ignorância, mais não fazem do que tagarelar
na sombra, alheados de tudo, e sempre prontos a seguir o rebanho sem saber como
nem para onde, outros porque aproveitando-se da inépcia dos primeiros, se
encarregam de os esmifrar sem dó nem piedade até à última gota de sangue, já
que de canibais falamos. Venha ela, e que leve mesmo esta bola algures
pendurada no espaço, porque o equilíbrio do sistema continuaria perfeito,
talvez mais perfeito ainda.
Será que há alguém que ainda acredita nesta corja de
mentirosos inveterados? Será possível que 30 e tal anos depois, ainda há alguém
que acredita numa palavra que seja de um qualquer político? Será que não é
visível aos olhos de todos que os sistemas políticos denominados de “democracias
representativas” ou de capitalismo liberal, mais não são do que formas
ardilosas que os mais velhacos encontraram para levarem à penúria os mais
ingénuos e os mais pobres de espírito? Têm estes biltres, autoridade moral para
apelar a manifestações ordeiras, condizentes com um estado de direito? O que é
afinal isto de estado de direito?
Tenho 50 anos. Quando se deu o 25 de abril de 1974, tinha eu
13 anos. Daí para cá, decorreram 37 anos. Foram 37 anos de mentiras e de falsas
promessas. Será que há maior falta de respeito do que a mentira? Eu nunca
persenti que o meu pai me mentisse, nem nas coisas mais banais, então e estes
crápulas que fazem da mentira um hobby,
reclamam de mim respeito e civismo?
Fala-se num buraco financeiro que ninguém arrisca a sua
profundidade. Arrisco eu. Este buraco não tem fundo. E ninguém me convence de
que todos o sacrifícios pedidos a este triste povo, mais não são do que sacos
de favas para continuar a engordar as cavalgaduras que nos governam.
Manifestações, destas de andar a passear pelas avenidas? Só se for para eles mofarem
ainda mais da nossa maciez e da nossa serenidade. Que venha a crise e que leve
a uma revolução a sério, sem cravos nos canos das espingardas, que varra deste rectângulo
toda a imundice e que faça deste país um verdadeiro estado de direito, onde se
torne visível o respeito mútuo entre governantes e governados e em que os
primeiros dêem mostras, através de exemplos, de que são dignos de serem os
representantes de um povo.
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