Flash 8
O quarto não tem mais do que 6 ou 7 metros quadrados, tem, no entanto, uma pequena janela por onde eles se evadem altas horas da noite para se juntarem aos outros miúdos da sua idade. Das paredes, onde a eterna imagem de um Papa qualquer jaz pendurada, começa a soltar-se uma pequena película branca resultante de uma tinta cansada de cobrir o barro que as forma. Incansável e imperturbável também se mantém, alheio ao tempo, um rosário de grandes contas pretas, que parecem ser de ébano ou de uma madeira parecida. Dada a exiguidade do quarto, a cama está encostada a uma das paredes. No colchão de palha, agora um pouco curtida por não ser substituída há já algum tempo, divertem-se os dois irmãos, João e Manuel, com 9 e 7 anos de idade respectivamente, enquanto esperam pelo sono ou pela oportunidade de sair pela janela. A parede onde a cama está encostada é contígua ao quarto dos pais. Dela ressoam gemidos abafados que eles não conseguem descortinar se são oriundos do ranger da cama, de gritos estrangulados de um momento de sexo ou das duas coisas.
O tempo é de quaresma, um tempo que há-de ficar bem vincado na memória destes dois miúdos. Para já, e porque o domingo de Páscoa ainda vai levar 40 dias a chegar, aproveitam o aconchego dos cobertores para "engancharem". O que é isso? Pois bem, entrelaçam os dedos mindinhos das mãos direitas formando dois elos, ao mesmo tempo que dizem: "Enganchar, enganchar para no domingo de Páscoa te mandar rezar, reza." Fica assim celebrado um pacto que tem como objectivo final a conquista de um pacote de amêndoas do tamanho que for acordado entre ambos. Ganhá-lo-á quem, depois da meia-noite de sábado da aleluia, isto é, o sábado que antecede o domingo de Páscoa - também chamado sábado maior sem que eu saiba porquê - disser ao outro a palavra "reza". Mas este enganchar, não é só feito entre eles, engancham também com quase todos os primos e é com estes que a coisa tem graça, porque quando chegar o dia, acordam ao cantar dos galos, agarram em dois cobertores e vão-se colocar em pontos estratégicos para dizerem alto e bom som: "reza", mal vejam os primos assomarem à porta.
Antes, porém, terão todo o cuidado para não comerem carne às sextas-feiras nem na quarta-feira de cinzas para não caírem na desgraça de cometerem um pecado mortal. Comê-la-ão aqueles que tiverem pago a "bula" ao senhor prior. Esperarão com ansiedade pelo domingo de ramos para, com a devida antecedência, fazerem uma visita aos ramos de loureiro das redondezas a fim de se certificarem dos que são mais perfeitos em galhos e flores, já que, na véspera desse domingo, munir-se-ão de uma pequena machada e de um canivete para os ir buscar. Depois enfeitá-los-ão com pequenos rebuçados da marca "provir" e pequenas tangerinas. No domingo de ramos a igreja parece uma verdadeira floresta. Não há quem não tenha um ramo de loureiro ou de oliveira na mão. São ramos de todas as formas e feitios. Os mais fortes levam verdadeiras árvores, como é o caso do tio Benilde e do tio Zé Plácido que por hábito empunham um ramo que varre as barbas ao S. Tiago que se encontra num dos pontos mais altos do altar.
Depois, virá o domingo de Páscoa. Por norma é um dos dias mais bonitos e felizes do ano. O padre desloca-se a pé com a sua comitiva, empunhando um grande crucifixo, para o dar a beijar a todas as famílias. Seguem-no várias pessoas entoando cânticos de aleluia. Os mais pequenos, como é o caso do João e do Manuel desdobram-se em esforços para conseguir visitar o máximo de casas a fim de angariarem a maior quantidade possível de amêndoas, que comerão nos dias seguintes. Acabada a visita pascal, as pessoas juntam-se no meio da povoação para fazerem vários jogos e dançarem ao som de um pequeno gira-discos colocado no parapeito de uma janela.
Sobre alguns pormenores de que falas, entre os meus apontamentos, encontrei um texto que transcrevo por evidenciar engraçadas semelhanças com o que descreves e por trazer alguma clareza quanto a nome do papa dependurado na parede do quarto...
ResponderEliminarNoites no Quarto
Um rosário de contas negras
na parede desbotada pelo bafo dos irmãos
Na parede encardida
pelos traques galhofeiros
de noites e noites e noites
Um quadro de Pio XII
nos destroços do passado
Continuamente esquecido na parede
ressequida pelos olhares de fogo
em noites e noites de gelo
Um divã pintado de ferro
no cerne do sobrado
que da cera partilha o cheiro
e o que sente são náuseas
de noites que foram geladas
Abraço grande!!